Tuesday, July 29, 2014

Poesie






Poesie


Es ist ein Hell-Dunkel und
man kann nur nach vorne gehen
nicht zurück
nicht zur Seite
die Möglichkeiten sind wie nur
auf diese eine Richtung konzentriert
wie ein Schicksal und ein Bestimmungsort
Mit offenen-geschlossenen Augen
verzweifelt-hoffnungsvoll versuchen wir
uns an das Heilig-Nüchterne zu erinnern
und einen Ort zu finden
aus dem heraus man wieder sehen könnte
Wir folgen einer zutiefst verinnerlichten Musik
die jetzt im Reich des Vergessenen liegt
auch wenn manche glauben, uns in der
Erscheinungsform zu erkennen
Wir schweben durch die Luft
langsam als bewegten wir uns kaum
wir schwimmen und gleiten
mit fließenden Bewegungen
nach vorne
Als wäre es eine einzige Bestimmung
als gäbe es eine Richtung nach Hause
die man kaum noch in Träumen finden kann


Imagem: Gustav Klimt, Beethovenfries: Die Poesie, 1902 (Klimt dedicou esta sua obra, que se encontra na Sezession em Viena de Áustria, à 9ª Sinfonia de Ludwig van Beethoven)

Créditos da imagem: accesswave.ca

Intertextualidades: Friedrich Hölderlin; Evgeny Evtuchenko, "People"
(24 de Maio de 2013)
Recuperamos hoje aqui um post de Maio de 2013 

Sunday, February 16, 2014

Sobreposições

 
  

 
A Igreja de S. Paulo, mais conhecida como Igreja da Universidade ou Paulinerkirche de Leipzig, datava do séc. XIII (1231) e foi dinamitada em 1968
 
 
 
 
O escultor Klaus Schwabe – um dos três autores do baixo-relevo – observa a desmontagem do monumento “Aufbruch” (“Avanço”). O relevo em bronze encontra-se desde 2008 na Faculdade de Desporto (Campus Jahnallee) em Leipzig

 

Desde 2 de Dezembro de 2011, a nova face da Universidade na Praça de Augusto em Leipzig


Sobreposições


       Tal como a memória ou um texto, a cidade tem múltiplas sobreposições. Camada sobre camada que foi sendo sobreposta pelo tempo, os projectos dos homens e o acaso, e que é possível ler num determinado momento. Por exemplo, Leipzig em Novembro de 2009. Vinte anos depois da “revolução pacífica”, os acontecimentos que anteciparam a Queda do Muro de Berlim. Antes disso, quase quarenta anos de pertença à República Democrática Alemã e ainda antes, a Segunda Grande Guerra e os tempos do nacional-socialismo. Uma cidade de muitas memórias, de grandes mutações, de sacrifício e sofrimento, espelhando afinal a história da Alemanha e até da Europa.

       Percorro as ruas e registo, como num filme, algumas dessas sobreposições que vemos no espaço e lemos no tempo. Perto da estação de caminho-de-ferro, o exemplo talvez mais visual - a “caixa de lata” (“Blechbüchse”), uma fachada de metal sem janelas. O edifício de 1964-66 de oito andares albergou os maiores e mais modernos armazéns da RDA, hoje sob protecção patrimonial. Em 1914, no mesmo lugar estavam os armazéns Brühl e, um século antes, em 1813, a casa onde nasceu Richard Wagner. A recuperação do edifício, hoje desactivado, deverá respeitar a fachada dos anos sessenta, bem como conservar a placa de bronze do escultor lípsio Fritz Zalisz, dos tempos dos armazéns Brühl, recordando o local onde nasceu Wagner.

        A rua mais movimentada da cidade, palco de inúmeros cortejos e manifestações, centro boémio e cena alternativa, é a “Karl-Liebknecht-Strasse”, onde viveu o fundador do KPD (Partido Comunista da Alemanha), na casa que hoje tem o nº 69. De 1874 a 1933, chamou-se ”Südstrasse”. De 1933 a 18 de Maio de 1945, “Adolf-Hitler-Strasse”. A 1 de Agosto de 1945, recebe o nome de “Karl-Liebknecht-Strasse”,  que ainda hoje conserva.  Depois da Queda do Muro, poderia ter passado a chamar-se “Strasse des 17. Juni”, recordando as greves, demonstrações e protestos de 1953, mas a população de Leipzig não quis,  e chama hoje com ironia à rua “Adolf-Südknecht-Str.”, ou com afecto simplesmente “Karli”.

       Perto do “Gewandhaus” e da Universidade, havia nos anos sessenta um enorme monte de entulho, em parte resultado das ruínas de uma escola feminina, “St. Annen-Schule”, depois de destruída em 1943 por uma bomba durante a Segunda Grande Guerra, que um grupo de estudantes – entre os quais a actual chanceler alemã, Angela Merkel – em boa hora resolveu limpar, à procura de instalações adequadas para um clube de estudantes.  Nessa tarefa, descobriram ruínas da antiga muralha da cidade, que hoje em dia albergam um café e restaurante, a “Moritzbastei”, com o mesmo nome da muralha medieval. Fórum de encontros culturais, mais de 200.000 visitantes por ano gozam da atmosfera única das arcadas medievais que albergam espectáculos de rock, jazz, teatro, filme ou leituras.

       O último exemplo de sobreposição é também o mais conturbado e radical: a “Paulinerkirche”. Consagrada em 1240 por monges dominicanos, a história desta igreja confunde-se com a da Universidade de Leipzig, a partir da sua fundação em 1409. Após a Reforma, é consagrada como igreja universitária por Lutero, com a dupla função de espaço religioso e aula para festividades académicas. Depois de modificações arquitectónicas importantes durante o séc. XIX, a igreja sobrevive ao bombardeamento de 4 de Dezembro de 1943. Mas, depois do fim da guerra, o governo da RDA pensa que a praça principal da cidade deveria ser o cartão de visita de uma metrópole socialista e decide demolir a igreja, apesar dos protestos da população, e a igreja antiquíssima e intacta é dinamitada a 30 de Maio de 1968. Seguiram-se mais protestos, nomeadamente por ocasião do 3º Concurso Internacional de Bach. Em 1974, foi colocado em seu lugar uma gigantesca escultura de bronze, intitulada “Aufbruch”, “Avanço”, representando a cabeça de Marx. Este baixo-relevo encontra-se desde 2008, depois de aceso debate, nos campi da antiga e famosa Escola de Desporto da “Jahnallee”, juntamente com um texto explicativo. No lugar da antiga “Paulinerkirche”, está a ser construído um compromisso entre igreja e aula, com o nome de “Universitätskirche St. Pauli”. O projecto deverá estar concluído em 2010.

       A cidade é como um palimpsesto, com vários registos, confirma a Professora Edvania Torres Aguiar, da Universidade de Recife, investigadora convidada de Geografia Humana na Universidade de Leipzig, a trabalhar num novo projecto, “Espaço público na cidade pós-socialista – o caso de Leipzig”. Salienta que Leipzig é protagonista da História da Alemanha porque nasce “de vanguarda”, do cruzamento de caminhos, das trocas comerciais, o que vai dar origem a uma das suas principais referências como cidade das feiras (“Leipziger Messen”). O facto de ser uma cidade livre (“Freistadt”), que não era sede de nenhum imperador, repercute-se na sua cultura e tradição de cidade independente.

       Nem sempre são os habitantes de uma cidade aqueles que melhor conhecem a sua História, por vezes é um olhar de fora que faz a diferença  – ninguém como esta Professora brasileira para contar histórias de cada rua, de cada canto desta cidade, com o entusiasmo de quem a cada dia redescobre e, narrando, recria um espaço.

Ana Maria Delgado
Novembro/Dezembro de 2009

Retomo hoje aqui um texto publicado na PnetLiteratura em 2009

Wednesday, February 5, 2014



Caríssimas amigas e amigos, os problemas técnicos com estes quatro blogues, que desde Abril de 2010 com tanto gosto e carinho tenho vindo a escrever com textos, música e imagens, estão sanados. Tudo vai, por isso, regressar à normalidade por aqui. Os quatro blogues de continuidade que entretanto criei continuarão na blogosfera como suporte e salvaguarda do essencial destes quatro blogues, e como prova de que não passo sem estes posts! Pela primeira vez há uma mensagem comum a todos - sabe tão bem voltar a casa!
 
 
 
 

Monday, February 3, 2014

Caríssimas amigas e amigos, obrigada pela atenção dada ao Blogando ao Sabor da Brisa / Blogging Along With the Breeze ao longo destes quatro últimos anos. Por motivos vários, vou dá-lo por terminado e podem continuar a seguir os textos que me inspiram no blogue Wet Paint Pintado de fresco, que comecei a 1 de Fevereiro de 2014, assinado da mesma maneira, Ana Constança Messeder. A todos um abraço e até lá!

Wednesday, January 1, 2014






O melhor ar da cidade


 
 



“I blow through here… and the music goes round and round… and it comes down here” (Danny Kaye, The Five Pennies)

       Não é nos parques, jardins botânicos ou bosques que se respira o melhor ar de uma cidade, mas sim... numa sala de concertos.  Talvez nem pensemos nisto, quando assistimos a um concerto e nos deleitamos com o sublime dos sons, mas toda essa “fantasmagoria” sonora depende, afinal, também  de coisas bem concretas. Tal como quando conversamos com alguém, e o entendimento depende de tantas coisas complexas como falarmos o mesmo idioma, termos referências culturais comuns, estarmos num momento mais ou menos sociável... Mesmo partilhando códigos de referência a comunicação é difícil e “a linguagem é fonte de mal-entendidos”, como escreveu Saint-Exupéry. Pode então desistir-se da comunicação, mas também o silêncio pode ser eloquente, ou de oiro. Seja como for, quando comunicamos oralmente não são só factores linguísticos e culturais, afectivos ou emocionais que estão em questão na comunicação, mas antes disso todo um processo físico de transmissão do som, sem o qual nem valeria a pena falar de toda a complexidade interpessoal dos processos de comunicação. Na verdade, o som em si nem existe como tal, são antes as ondas sonoras que transportam aos nossos ouvidos vibrações do ar que são captadas e amplificadas 180 vezes pelo nosso aparelho auditivo, até a informação chegar ao cérebro.

       Podia ser aqui ou noutra cidade da Alemanha ou do mundo, mas imaginemos que estamos a fazer uma visita guiada ao Gewandhaus em Leipzig. Não é pela sala grande que começamos, uma sala monumental de 1.900 lugares, a que preside um majestoso órgão de 6.638 tubos, encimado pela máxima que guia a orquestra, uma citação de Séneca, “Res severa (est) verum gaudium”, “A alegria autêntica é uma coisa séria”. Juntamente com esta imagem emblemática, uma outra se nos grava na memória, mais minimalista e pósmoderna, e é por aí que começa uma visita guiada ao Gewandhaus: a dos filtros de ar nas caves do edifício. São compartimentos repletos de maquinaria onde o ar exterior é cuidadosamente filtrado. Os filtros estão muito sujos, o ar atmosférico está muito poluído, apesar dos inúmeros e vastos espaços verdes que a cidade possui, quer no centro, quer em seu redor. Há, no quarto fechado onde estão os filtros, um filtro novo no chão para se poder comparar a sua cor imaculadamente branca com o castanho acinzentado dos filtros que estão em funcionamento. O ar tem de ser filtrado para evitar infiltrações de bactérias no circuito de ar condicionado, obtendo-se por este processo igualmente uma melhor qualidade sonora. Os instrumentos musicais, nomeadamente os pianos, são zelosamente guardados num compartimento fechado onde o ar é rigorosamente medido e regulado, e daí sobem num elevador directamente para a sala de concertos. Os concertistas preferem os pianos de marca Steinway, e são sensíveis à perda de qualidade sonora dos instrumentos após cinco anos de uso. Assim, os instrumentos com mais de cinco anos são vendidos em leilão. A acústica da sala de concertos é outra das grandes preocupações de quem projecta. Embora três engenheiros de acústica tenham trabalhado no projecto da sala grande de concertos do Gewandhaus, só se pode saber o resultado no final, e afirma quem sabe: a acústica de uma sala de concertos é uma pura questão de sorte! A propósito, para quem ainda aqui não esteve, a acústica da sala grande de concertos do terceiro Gewandhaus de Leipzig, concluído em 1981, é perfeita.

Ana Maria Delgado
Outubro de 2009
 
Nota: recuperamos hoje neste blogue um texto que publiquei como colaboradora da PNET Literatura em 2009. Em baixo fica ainda a recordação do momento musical evocado em epígrafe ao texto, do filme musical The Five Pennies (1959), com Danny Kaye e Susan Gordon:
 
 
 

Tuesday, May 28, 2013



 
 
Poesie
  
Es ist ein Hell-Dunkel und
man kann nur nach vorne gehen
nicht zurück
nicht zur Seite
die Möglichkeiten sind wie nur
auf diese eine Richtung konzentriert
wie ein Schicksal und ein Bestimmungsort
Mit offenen-geschlossenen Augen
verzweifelt-hoffnungsvoll versuchen wir
uns an das Heilig-Nüchterne zu erinnern
und einen Ort zu finden
aus dem heraus man wieder sehen könnte
Wir folgen einer zutiefst verinnerlichten Musik
die jetzt im Reich des Vergessenen liegt
auch wenn manche glauben, uns in der
Erscheinungsform zu erkennen
Wir schweben durch die Luft
langsam als bewegten wir uns kaum
wir schwimmen und gleiten
mit fließenden Bewegungen
nach vorne
Als wäre es eine einzige Bestimmung
als gäbe es eine Richtung nach Hause
die man kaum noch in Träumen finden kann
 
Imagem: Gustav Klimt, Beethovenfries: Die Poesie (Klimt dedicou esta sua obra, que se encontra na Sezession em Viena de Áustria, à 9ª Sinfonia de Ludwig van Beethoven)

Intertextualidades: Friedrich Hölderlin; Evgeny Evtuchenko, "People"
 
(24 de Maio de 2013)

Saturday, March 2, 2013

Margem

 
 
 
Margem

 
Longo tempo

caminhei por uma

muito estreita

margem

como se fosse meu

todo o horizonte




Chansonnettes (2010-2011)


Imagem e créditos: La Equilibrista, flickr.com ("una cierta mirada", autoria Luis Mariano González)

Actualizamos hoje um post de 11 de Maio de 2010 no blogue Blogando à Volta do Globo/Blogging Around the Globe

Sunday, January 27, 2013

Viagem




Uma grande onda

de solidão

trouxe-me

a esta praia



Chansonnettes (2010-2011)


Imagem: Robert Doisneau, 49. Quai du Vert Galant, Paris (1946)

Créditos da imagem: gilbertmusings.tumblr.com
 
Recupero hoje uma publicação de Blogando à Volta do Globo/Blogging Around the Globe de 8 de Maio de 2010

Tuesday, October 23, 2012

 A janela de canto, à maneira de prefácio de um romance por escrever, ou o outro lado da solidão

 
 
 
 
 
Sou curiosa como os gatos e gosto desta minha janela de canto, que lembra a janela do conto de E. T. A. Hoffmann. Mas a minha é menos citadina que essa outra, embora situada bem perto do centro da cidade. Esta não é uma janela da qual me possa debruçar desiquilibrando a relação estabelecida entre interior e exterior. É antes uma janela como a cabina do piloto num avião - o arquitecto que desenhou esta casa substituiu a parte intermédia da parede da cozinha por um vidro panorâmico, e enquanto aí trabalho vou olhando lá para fora. A comparação com a aeronave é apropriada, pois muito embora estejamos quietos e tranquilos em nossas casas, a verdade é que giramos com o nosso planeta em redor do Sol descrevendo uma elipse a uma velocidade de 30 km por segundo, velocidade essa quase cem vezes superior à do som, ao mesmo tempo que acompanhamos com velocidade semelhante a rotação da Terra em volta do seu eixo, tudo isto com a sensação de estarmos parados.


A janela dá para a entrada de um parque, por sua vez situado nas imediações de um jardim botânico, e é movimentada de dia e sossegada à noite. Na Primavera e Verão quase só vejo o verde das folhas das árvores que me fazem de cortina, e o doirado que reflectem da luz do sol, ocultando quase por inteiro a vista sobre o vaivém de quem entra e sai do parque. No Outono e Inverno os ramos vão ficando despidos e depois nus, em breve se recortam em negro no cinzento dos dias, até que acabam por ficar brancos quando a neve chega, e posso então ver com maior nitidez as pessoas que vêm aqui passear. Vejo o mudar das estações desta janela, pouco a pouco dia após dia e no momento imperceptível da mudança, decisivo e difícil de detectar, porque é constante e vai simplesmente acontecendo, se estivermos bem atentos ao respirar das folhas e à conspiração das flores, ao rumorejar das gotas de água nas nuvens e à enigmática preparação dos cristais de neve, tão diferentes todos uns dos outros - embora nós humanos pouco costumemos reparar nessas coisas que tão silenciosamente nos rodeiam. Talvez o cinema, arte do movimento, tivesse a capacidade de mostrar o invisível. Mas quando se trata do momento da transformação, creio que nem o cineasta mais atento seria capaz de o dar a ver. Provavelmente porque, mesmo no coração da mudança, o registo exacto do instante em que as coisas mudam teria de pertencer a alguma espécie de eterna suspensão do tempo, de tão lenta a transformação. Pasmo ininterruptamente perante o mistério da vida, que se desenrola diante dos nossos olhos sem que, a maior parte das vezes, sejamos capazes de a ver.
 
 
Muitas vezes tenho pensado em como seria imaginar histórias como fez E. T. A. Hoffmann nos seus contos fantásticos - mas logo a fantasmagoria do real me invade e fico momentos infindáveis a reflectir sobre o mistério das coisas, num encantamento feito de respeito e cumplicidade.


 
(Leipzig, 2011)


Música de Robert Schumann, compassos iniciais da Kreisleriana op. 16, "2. Sehr innig und nicht zu rasch / Con molta espressione, non troppo presto", na interpretação de Martha Argerich, sobre som-ambiente
 
 
 

Janela de Leipzig que imaginei poderia bem ter sido o modelo da janela do conto de E. T. A. Hoffmann ("Des Vetters Eckfenster")
 

Saturday, September 29, 2012


Receita para o sonho


Diz-me o que me acontece.

Sonho lucidamente
com mil realidades
com os pés na terra.
Parto para mil viagens,
universos e galáxias,
busco, procuro, exploro,
levanto voo, penso, sinto,
estou a aprender a sonhar
com os pés na terra.

Leve borboleta esvoaço
em raízes mil e elásticas.

Que maravilha!


Sistro (1979)


Foto de Luis Mariano Gonzáles, "Con los pies en el cielo"
www.flickr.com/unaciertamirada

Luis Mariano Gonzáles, "La vida después del sueño", I e II:














Nota da autora: actualizo hoje o post deste blogue do dia 3 de Novembro de 2010 com mais duas belíssimas fotos de Luis Mariano Gonzáles, "La vida después del sueño", I e II.


Saturday, August 11, 2012

3.xii.95

Guardian Angel, are you still there? Everything's so quiet now. Look, this is not what I want to do. I'm so much better at writing-composing my UNO. Maybe all that I've been writing seems dull to you, and it surely seems dull and fading away to me, since it is all in the past! But how can I get there? Of course, I've still got my UNO, and I've got you, it's just that I can't hear you now, although I know you're there. But I think I can guess what you are saying to me - if I make an effort and learn some more music, I'll be able to sing and then we'll be able to understand each other at a higher level and on a wider basis.

Keine Erinnerung der Dinge als abwesend. Keine Vergangenheit.

Oh, was that you, Guardian Angel?

Yes, I'm here. And I have a complete register of everything that happened in the world while you were writing your text - to prove it all true.


(Finha de Fuga - Flightline - Fluchtlinie. Projecto de filme-cantata a várias vozes)

Imagem: Paul Klee, Engel noch tastend


Saturday, March 31, 2012

 

Alvorecer





Agosto de 1992

O pôr-do-sol tinha estado púrpura e a cor ficou longo tempo a confundir-se com o azul-negro da noite, iluminada pelo quarto crescente. Agora, às seis da manhã, um rosado intenso do lado norte precipitava-se no negro-verde das árvores. Por cima do rosa, muito gradualmente, aparecia um azul escuro que parecia querer clarear à medida que se misturava com a cor mais clara. Previam perto de quarenta graus centígrados - o dia ia estar muito quente e, mais uma vez, era outro dia. Durante algum tempo o rosado da noite parecia iluminar-se de um branco que não era já o da noite de luar. Quedou-se o rosa a fundir-se cada vez mais no azul claro acinzentado, enquanto o rosa suave continuava a crescer de por trás dos montes de verdes ainda muito escuros. Mais uns minutos - tudo isto parecia uma miniatura da vida, as coisas aconteciam por vezes num abrir e fechar de olhos - e o rosa tinha desaparecido por completo, para se transformar na luz-luz pura, sem cor, e nos pinhais havia pequenas nuvens de brumas brancas. Apaguei a luz eléctrica, já não era necessária, estava agora a mais. O dia estava a nascer.

Linha de Fuga, Projecto de filme-cantata a várias vozes





Monday, December 12, 2011


Espera


(...)

       O Lord quando estava para partir mandou dizer ao prelado que queria pagar o que tinha gasto. Ele respondeu que não queria mais do que a paz do reino.


       Este convento perdeu muito com a tropa. Desapareceu quase tudo o que se havia dado para as camas e mesas dos oficiais. Nada do que era bom ficou. Além do estrago que fizeram os franceses, perdemos quase todo o milho que ainda estava verde; grande quantidade de cedros foram quebrados; queimaram quanta lenha quiseram por toda esta mata.

       O Tratado de 1810 abre à Inglaterra os portos brasileiros; para Lord Wellington os melhores artistas e artífices portugueses desenham e executam uma preciosíssima baixela de prata. Cinco anos depois o Lord ganha contra Napoleão a decisiva batalha de Waterloo. Os nossos pequenos heróis anónimos continuam a passar fome.

       A testemunha ocular é humanista, comovida, patética. Não somos só objecto da História, mas também o somos.

       Pelas 8 horas da manhã saí do convento a ver o fogo: indo entrando pela porta que está ao pé do tanque, encontrei ali um paisano a chorar; perguntei-lhe que tinha? Respondeu-me, quase sem articular palavra: pois não vê aquilo? O quê? Disse eu. Acrescentou ele: aqueles franceses feridos que ali estão. Reparei logo para baixo, vi-os de tão miserável forma, que sem querer me principiaram logo a correr as lágrimas. Uns 4 ou 5 estavam cortados pela cinta e tão esgotados de sangue que tremiam de frio. Mas um deles, que causava mais ternura, tinha o rosto atravessado de um a outro lado por uma bala que lhe passou por entre os queixos: o sangue saía-lhe pela boca, e tinha já uma grande porção dele coalhado pendente dos beiços... Este nem sequer uma palavra podia dar.

       E se pudesse, o que saberia dizer das razões que o levaram a travar aquela batalha, a participar naquela luta? Somos objecto uns dos outros, às vezes...

       Em cima do obelisco, pirâmide quadrangular feita de uma só pedra de seis metros de altura, brilha uma estrela de cristal, de oito raios facetados.

       O Homem há-de ser sujeito da História. E para mim, a estrela, um desejo, um tempo de espera.

Modo Vocativo  (1979)

Friday, October 14, 2011


Espera


(...)

       O general Freirion e o general Eble, convencidos da grande vantagem das posição dos aliados, também aconselharam a Massena que, em vez de obrigar Wellington a abandonar-lhe a sua formidável posição por meio de uma batalha atacando o boi pelos paus, tratasse de tornear a montanha. Massena, obstinado no seu propósito, contentou-se em responder: Vós que sois do exército do Reno, vós outros que gostais de manobrar, é a primeira vez que Wellington parece disposto a dar batalha; quero portanto aproveitar-me da ocasião... E tentava animar as tropas, dizendo: “Meus amigos, esta montanha é a chave de Lisboa, é preciso ganhá-la com a ponta das baionetas; esta vitória ainda, e repousaremos depois!”

       No dia 26 ficou reunido na raiz da serra do Buçaco todo o exército francês; e no mesmo dia também todas as tropas aliadas se postaram na montanha.

       Dia 26: Logo que se levantou, o general mandou sair para fora da mata todas as suas bagagens. Isto causou no convento um grande susto, tanto que alguns se aprontaram para fugir. Pelo meio-dia tornaram a voltar para o convento, e então é que mandou fazer o jantar. Todos ficaram algum tanto mais consolados.

       Segundo Wellington, a força do exército francês era de 72.000 homens para 49.175 do exército aliado, sendo 24.000 ingleses e 25.175 portugueses. Quanto aos números exactos, as opiniões variam. Mas que nos interessam os números exactos? E no entanto se aqui os pus foi porque achei importante. Qual a importância, o peso da realidade, dos factos reais, na ficção? E o que estou a escrever, será só ficção?

Dia 27 - o dia da batalha. Hoje levantou-se cedo o general e mandou logo sair as suas bagagens para fora da mata. Das 4 para as 5 da manhã, valendo-se os franceses de uma espessa névoa que de noite se tinha levantado por todo o vale que mediana entre um e outro exército, avançaram com grande ímpeto sobre a nossa tropa, principalmente nas duas estradas que vêm de Mortágua para Coimbra. A névoa permitia aos franceses avançar, conquistar terreno aos aliados, embora muito a custo, pois estavam numa posição de desvantagem quanto à colocação no terreno. Os batalhões portugueses e as tropas inglesas que disputavam o terreno passo a passo com os inimigos foram obrigados a retirar-se para o alto da montanha e reunir-se à linha de batalha dos aliados.

Aí os batalhões aliados se fortificaram e defenderam heroicamente por mais de três quartos de hora contra toda a força inimiga, que sofreu uma perda considerável até que, vencidos pelo número superior, largaram esta posição e continuaram (disputando o terreno) a retirar-se até que se reuniram à sua linha. Esta, com um sangue-frio e firmeza digna de admiração, esperou o inimigo até à distância de cinquenta passos, para começar um fogo de filas tão bem sustentado que, junto com a metralha da sua artilharia, num momento as duas colunas francesas foram desordenadas e postas em completa derrota, e sem perder um momento fizeram meia volta, e desceram a montanha mais depressa do que a tinham subido, abandonando os seus feridos. Ao segundo ataque, os franceses acharam tal resistência, que deixaram só ali 4.500 soldados mortos e 3.000 feridos, cedendo ao valor das tropas aliadas, que com uma pequena perda inutilizaram a violência do ataque dos franceses.
                                                                                  
       Massena, vendo que fora a sua suposta queda para profeta que lhe preparara a queda, convoca o seu estado-maior e decide finalmente tornear o obstáculo.

       Wellington, por seu lado, percebendo o movimento do exército francês, ordena logo uma bem ordenada retirada. Há quem diga que ele não soube tirar todas as vantagens da vitória e, por falta de confiança nas tropas portuguesas, não aniquilou de vez o inimigo. O certo é que se dirigiu para as formidáveis linhas de Torres Vedras, barreira invencível diante da qual o inimigo se quedou estupefacto, vendo impotentes todos os seus esforços.

       Mais uma vez afirmo a necessidade de montagem. Havia vozes que procurei, vozes desconhecidas, escondidas, murmúrios semi-silenciosos em jeito vocativo. Tive de os escrever aqui. Ia para pedir desculpa, mas eles estão a acenar-me que não peça nada, que eles é que não me perdoavam não ter dado volume às suas vozes por descobrir.
 
    
(a continuar)


Modo Vocativo (1979)

Sunday, September 18, 2011


Espera

(...)

       Os franceses, mais arreliados do que propriamente afectados no físico ou no moral, não perdoavam a estes pequenos agentes da História: torturavam-nos até à exaustão, assassinavam-nos barbaramente. Estes portugueses não deixam de ser, à sua maneira, sujeito e objecto da História. A História não é só o Grande Mecanismo que tritura seres humanos, a escada que todos sobem para encontrar no cimo, ao mesmo tempo que a glória efémera, o abismo. A História não é a Roda da Fortuna que tão depressa eleva os homens como os lança e esmaga num círculo de absurdo. Não. A História não é isso, porque ela é escrita – com sangue e sofrimento e erros e coragem e inteligência – pelos homens. Embora muitas vezes pareça absurda. Não é a História que é absurda. É ao próprio ser humano que devemos ir procurar as contradições – a ele, na sua interacção com os outros homens, com a natureza, e consigo mesmo.

       Massena avança e Wellington, que tem enviados seus para lhe espiarem os movimentos, vê o inimigo aproximar-se da ratoeira e cada vez se sente mais seguro e mais receoso. Nos dias 23 e 24 ouve-se já muito fogo nas localidades próximas, anunciando a vizinhança do inimigo. Os oficiais ingleses, nomeadamente o general, observam da Porta de Sula o espectáculo que dali se divisa – muitas casas a arder – e no rosto lê-se-lhe grande tristeza. O general não podia fazer nada, não podia acudir-lhes, a única maneira de lhes acudir era estar ali quieto, a preparar-se para a acção – mas só quando fosse a altura. No dia 24 Lord Wellington mandou abrir a Porta da Rainha, que estava tapada com pedra, por estar mais próxima da estrada. Com outras duas que, por motivos tácticos, mandou abrir, a mata ganhou mais três portas.

       No dia 25 todo o exército francês estava em movimento e veio acampar em Tondela e cercanias. Entre 25 e 26 estão muito próximos das tropas aliadas, nas vizinhanças de Moura e Sula. Os aliados põem o seu exército em linha por todo o cume da serra, da qual a mata é o centro. Fazem-se baterias por todos os montes. Os regimentos que ainda estavam pelos pinhais de Moura e Sula recuaram, por estarem muito próximos do inimigo.


       Participam então a Massena que os aliados se opõem à passagem da montanha com forças consideráveis. Massena pergunta ao general Pamplona se julga que os aliados vão oferecer batalha, ao que este responde afirmativamente. Diz então Massena, convencidíssimo e em tom de oráculo: “Eu não me persuado que lord Wellington se arrisque a perder a sua reputação; mas se o faz, je le tiens; demain nous finirons la conquête du Portugal, et en peu de jours je noyerai le léopard.”


       Antes de resolver atacar a posição, Massena convoca no dia 26 o marechal Ney, o general Regnier e o general Junot para os ouvir e conferenciar com eles acerca do que conviria fazer. Ney opinou que se não atacasse a posição no dia seguinte – bem calculava ele que durante a noite se reuniria todo o exército anglo-luso e que no dia seguinte teriam os franceses de arcar com todas as forças aliadas. Regnier e Junot seguiram o parecer de Ney.


       Disse então Massena:
-          Eh bien, que faut-il faire ?
-          Prendre position à Viseo, respondeu Ney, ou bien retourner sur nos pas à Almeida pour contenir l’Espagne, et écrire à Paris que nous n’avons pas assez de forces pour faire la conquête du Portugal.


       Massena, sob o signo da hybris mais uma vez, novamente julgou mal a situação; pensou que o fim de Ney era desviá-lo do combate para o privar da glória de conquistar o reino e torná-lo assim mal visto aos olhos de Napoleão. A resposta de Ney não casava com a sua habitual intrepidez e era até, bem vistas as coisas, inadmissível. Mas a desconfiança de Massena em relação às supostas razões de Ney levaram-no, por espírito de contradição, a desprezar o que teria sido acertado: tornear a posição, evitar o obstáculo. Ordenou então que no dia seguinte se atacasse a serra, dizendo: Je ne crois là que l’arrière-garde ennemie; si toujours l’armée s’y trouve, tant mieux, le bonheur de l’enfant chéri de la victoire ne l’abbandonnera pas !

       Do que Massena se esqueceu foi de que os riscos não se podem correr às cegas, tem que se olhar o real de frente e tentar captar todas as suas potencialidades.

       Somos sujeito e objecto da História.


       Na sua cela das duas portas, Wellington marcha de um lado para o outro.

 
(a continuar)

Modo Vocativo (1979)


 
Imagem: Palace Hotel do Buçaco, azulejos do hall do hotel, "Lord Wellington", in: