Friday, July 2, 2010




Fantasia





Reclinada na cama penso

que haverá dias e noites e momentos

em que a tua mão pousada

leve sobre a minha nuca

será o poema que não escrevo

para continuar

Haverá noites e momentos

em que só o aproximar das tuas mãos

fará o tempo parar

Sistro, 1979

Imagem: Henri Matisse, Temas e Variações

Chet Baker ao vivo na Bélgica em 1964, Time After Time


Friday, June 11, 2010








Earl Grey (English version)





Earl Grey, almost an autobiography of adolescence


Earl Grey, Earl Grey is my morning tea (ever since I began to have grown-up habits and started to drink tea for breakfast), that noble Englishman has capturated my whole morning being - not at all, not at all, it was Catherine of Bragança who brought the tea to the English royal court -
 
Earl Grey is my morning feast, the sharp flavour of bergamotte helps me enter the day, these transitions are always difficult for me - I know that my flat mate in the student halls doesn't steal it from me because she doesn't like the scent of Earl Grey - the name in English is familiar to me, maybe because of my grandfather's English ancestors on my mother's side who came to Oporto from Scotland and were named Messeder - oh no, Annie, they probably spoke Gaelic - oh no, oh no, just 2% of Scotland's population, roughly 5 million inhabitants, speak Scottish Gaelic nowadays - but the story of the Scottish ancestor was already in the XIX century -
 
Earl Grey, I would so much like to sing, today is a new day and it's a magnificent sunny day, just like the sun rise and shine - but sing for what purpose, Annie, the age is not lyrical at all - but Earl Grey, Earl Grey, I will sing your name that I have forgotten, whatever it may be, because even that doesn't matter anymore, through the city's streets - and without blushing!

Chansonettes (2010)
Créditos da imagem: adiaspora.com

Sunday, May 30, 2010

Ouvindo o 1º Prelúdio do Cravo Bem-Temperado de Bach - à minha mãe, Maria Helena (aqui interpretado por Alexei Sultanov)







Ouvindo o 1º Prelúdio do Cravo Bem-Temperado de Bach
- à minha mãe, Maria Helena

Dos meus dedos goteja poesia
sinto-a nas veias a latejar
pinga no papel em sangue vermelho
tira sons do azul da minha dor
do branco impuro faz mil farrapos
de improviso cria um arco-íris
mistura as cores, é caleidoscópio,
rapsódia fantástica, é silêncio,
é sinfonia, é som, sem cessar.

Dos meus dedos goteja poesia.
Para ti, queria eu só que fosse
água viva, clara, cristalina,
a correr no papel como da fonte
que mata aquela sede que sentimos
do que é puro, e forte, e necessário.

Tu és aquilo sem o qual
a vida não tem sentido.
És-me necessário, imprescindível,
és a própria escrita sem a qual
a minha não faz sentido.

Sistro, 1979

Imagem: Capa do manuscrito do Cravo Bem-Temperado de J. S. Bach

Suão (e 'Danza ritual del fuego', de Falla, na interpretação da Orquestra Sinfónica de Chicago, dirigida por Daniel Barenboim)




Suão


O Suão é quente e seco no Verão, de Inverno é quente e frio.


O Suão vem dos desertos do Norte de África ao encontro de núcleos de menores pressões criadas por situações de aquecimento continental.


Na Beira Alta existem corredores de vento que, juntamente com o efeito exercido por obstáculos, as serras, criam acelerações muito grandes de correntes de ar.


No lado poente do Buçaco o Suão sente-se de modo particularmente agudo porque o obstáculo encontrado - a própria serra - faz com que o vento se movimente com muito mais força.


O Suão começa pela meia-noite e sopra com mais força até ao meio-dia.


O Suão afecta as pessoas física e psiquicamente. Actua como um excitante nervoso, mas ao mesmo tempo deixa-as num estado de lassidão.


Nas noites de Suão a atmosfera é tão seca que proporciona uma visibilidade excepcional que faz com que as coisas mais longínquas pareçam muito próximas, como se fossem vistas por um óculo mágico.


O Suão espalha no ar um ambiente dramático, de iminência de qualquer coisa de excepcional que está para acontecer.



Modo Vocativo (1979)


Saturday, May 22, 2010




Escrita Secreta







Se eu pudesse - conservando todo o meu sangue-frio e mantendo todo o calor do meu sangue - escrever de modo branco na página por escrever, branco sobre branco, de modo invisível, para que todas as cores unidas me ocultassem dos meus perseguidores e me revelassem na transparência que tenho apenas para quem, sabendo-me ler, merecesse conhecer-me de cor...
(2003)

Assim regressaria a página à sua brancura inicial, pura ou impura conforme a perspectiva do criador, e àquela categoria infinita e infinitamente misericordiosa, segundo criatura ou criador ainda, a da possibilidade.


Chansonettes (2010)

Imagem: Paul Klee, Geheimschrift, Escrita Secreta

Créditos da imagem: allposters.de

Saturday, May 8, 2010


Breathless Blues

Never Will I Forget the Blues

I missed you
I had been missing you

I've missed you

I have been missing you

I miss you

I'm missing you


Should I miss you?

Should I be missing you?

Shall I miss you?

Shall I be missing you?


Have I forgotten any tense?

I'll remember that missing one

If you don't give me the chance


To miss you more


Images in Blues (1979)

Imagens: Sidney Bechet e Mezz Mezzrow


Créditos das imagens: jazzlives.wordpress.com





Tuesday, May 4, 2010



Riding My Bicycle


Somewhere from where you are
Over all possible rainbows
You'll see me riding my bicycle


Over all possible colours
Skies, absences or silences
You'll see me riding my bicycle


As invisible as
and frail
and weightless as
a mosquito


in circles and evasions
envelopping you
or no


You'll see me riding my bicycle
No tricks, no filthy magic
just a girl riding her bicycle


As quiet as
and grave
and definite as
a Bergman silhouette


You'll see me riding my bicycle
No Dance of Death
Just a girl riding her bicycle


In a rainbow of joy
and life
and colour
over all possible rainbows

just a girl riding a bicycle



Images in Blues (1979)


Imagem: Norman Rockwell, Wet Paint (Pintado de fresco)


Créditos da imagem: allposters.de