Showing posts with label Guerras Peninsulares. Show all posts
Showing posts with label Guerras Peninsulares. Show all posts

Sunday, September 18, 2011


Espera

(...)

       Os franceses, mais arreliados do que propriamente afectados no físico ou no moral, não perdoavam a estes pequenos agentes da História: torturavam-nos até à exaustão, assassinavam-nos barbaramente. Estes portugueses não deixam de ser, à sua maneira, sujeito e objecto da História. A História não é só o Grande Mecanismo que tritura seres humanos, a escada que todos sobem para encontrar no cimo, ao mesmo tempo que a glória efémera, o abismo. A História não é a Roda da Fortuna que tão depressa eleva os homens como os lança e esmaga num círculo de absurdo. Não. A História não é isso, porque ela é escrita – com sangue e sofrimento e erros e coragem e inteligência – pelos homens. Embora muitas vezes pareça absurda. Não é a História que é absurda. É ao próprio ser humano que devemos ir procurar as contradições – a ele, na sua interacção com os outros homens, com a natureza, e consigo mesmo.

       Massena avança e Wellington, que tem enviados seus para lhe espiarem os movimentos, vê o inimigo aproximar-se da ratoeira e cada vez se sente mais seguro e mais receoso. Nos dias 23 e 24 ouve-se já muito fogo nas localidades próximas, anunciando a vizinhança do inimigo. Os oficiais ingleses, nomeadamente o general, observam da Porta de Sula o espectáculo que dali se divisa – muitas casas a arder – e no rosto lê-se-lhe grande tristeza. O general não podia fazer nada, não podia acudir-lhes, a única maneira de lhes acudir era estar ali quieto, a preparar-se para a acção – mas só quando fosse a altura. No dia 24 Lord Wellington mandou abrir a Porta da Rainha, que estava tapada com pedra, por estar mais próxima da estrada. Com outras duas que, por motivos tácticos, mandou abrir, a mata ganhou mais três portas.

       No dia 25 todo o exército francês estava em movimento e veio acampar em Tondela e cercanias. Entre 25 e 26 estão muito próximos das tropas aliadas, nas vizinhanças de Moura e Sula. Os aliados põem o seu exército em linha por todo o cume da serra, da qual a mata é o centro. Fazem-se baterias por todos os montes. Os regimentos que ainda estavam pelos pinhais de Moura e Sula recuaram, por estarem muito próximos do inimigo.


       Participam então a Massena que os aliados se opõem à passagem da montanha com forças consideráveis. Massena pergunta ao general Pamplona se julga que os aliados vão oferecer batalha, ao que este responde afirmativamente. Diz então Massena, convencidíssimo e em tom de oráculo: “Eu não me persuado que lord Wellington se arrisque a perder a sua reputação; mas se o faz, je le tiens; demain nous finirons la conquête du Portugal, et en peu de jours je noyerai le léopard.”


       Antes de resolver atacar a posição, Massena convoca no dia 26 o marechal Ney, o general Regnier e o general Junot para os ouvir e conferenciar com eles acerca do que conviria fazer. Ney opinou que se não atacasse a posição no dia seguinte – bem calculava ele que durante a noite se reuniria todo o exército anglo-luso e que no dia seguinte teriam os franceses de arcar com todas as forças aliadas. Regnier e Junot seguiram o parecer de Ney.


       Disse então Massena:
-          Eh bien, que faut-il faire ?
-          Prendre position à Viseo, respondeu Ney, ou bien retourner sur nos pas à Almeida pour contenir l’Espagne, et écrire à Paris que nous n’avons pas assez de forces pour faire la conquête du Portugal.


       Massena, sob o signo da hybris mais uma vez, novamente julgou mal a situação; pensou que o fim de Ney era desviá-lo do combate para o privar da glória de conquistar o reino e torná-lo assim mal visto aos olhos de Napoleão. A resposta de Ney não casava com a sua habitual intrepidez e era até, bem vistas as coisas, inadmissível. Mas a desconfiança de Massena em relação às supostas razões de Ney levaram-no, por espírito de contradição, a desprezar o que teria sido acertado: tornear a posição, evitar o obstáculo. Ordenou então que no dia seguinte se atacasse a serra, dizendo: Je ne crois là que l’arrière-garde ennemie; si toujours l’armée s’y trouve, tant mieux, le bonheur de l’enfant chéri de la victoire ne l’abbandonnera pas !

       Do que Massena se esqueceu foi de que os riscos não se podem correr às cegas, tem que se olhar o real de frente e tentar captar todas as suas potencialidades.

       Somos sujeito e objecto da História.


       Na sua cela das duas portas, Wellington marcha de um lado para o outro.

 
(a continuar)

Modo Vocativo (1979)


 
Imagem: Palace Hotel do Buçaco, azulejos do hall do hotel, "Lord Wellington", in: