Monday, February 3, 2014
Caríssimas amigas e amigos, obrigada pela atenção dada ao Blogando ao Sabor da Brisa / Blogging Along With the Breeze ao longo destes quatro últimos anos. Por motivos vários, vou dá-lo por terminado e podem continuar a seguir os textos que me inspiram no blogue Wet Paint Pintado de fresco, que comecei a 1 de Fevereiro de 2014, assinado da mesma maneira, Ana Constança Messeder. A todos um abraço e até lá!
Wednesday, January 1, 2014
O melhor ar da cidade
“I blow through here… and the music
goes round and round… and it comes down here” (Danny Kaye, The Five Pennies)
Não é nos parques, jardins botânicos ou bosques que
se respira o melhor ar de uma cidade, mas sim... numa sala de concertos. Talvez nem pensemos nisto, quando assistimos
a um concerto e nos deleitamos com o sublime dos sons, mas toda essa
“fantasmagoria” sonora depende, afinal, também de coisas bem concretas. Tal como quando
conversamos com alguém, e o entendimento depende de tantas coisas complexas
como falarmos o mesmo idioma, termos referências culturais comuns, estarmos num
momento mais ou menos sociável... Mesmo partilhando códigos de referência a
comunicação é difícil e “a linguagem é fonte de mal-entendidos”, como escreveu
Saint-Exupéry. Pode então desistir-se da comunicação, mas também o silêncio
pode ser eloquente, ou de oiro. Seja como for, quando comunicamos oralmente não
são só factores linguísticos e culturais, afectivos ou emocionais que estão em
questão na comunicação, mas antes disso todo um processo físico de transmissão
do som, sem o qual nem valeria a pena falar de toda a complexidade interpessoal
dos processos de comunicação. Na verdade, o som em si nem existe como tal, são
antes as ondas sonoras que transportam aos nossos ouvidos vibrações do ar
que são captadas e amplificadas 180 vezes pelo nosso aparelho auditivo, até
a informação chegar ao cérebro.
Podia ser aqui ou noutra cidade da Alemanha ou do
mundo, mas imaginemos que estamos a fazer uma visita guiada ao Gewandhaus em
Leipzig. Não é pela sala grande que começamos, uma sala monumental de 1.900
lugares, a que preside um majestoso órgão de 6.638 tubos, encimado pela máxima
que guia a orquestra, uma citação de Séneca, “Res severa (est) verum gaudium”,
“A alegria autêntica é uma coisa séria”. Juntamente com esta imagem
emblemática, uma outra se nos grava na memória, mais minimalista e pósmoderna, e
é por aí que começa uma visita guiada ao Gewandhaus: a dos filtros de ar nas
caves do edifício. São compartimentos repletos de maquinaria onde o ar exterior
é cuidadosamente filtrado. Os filtros estão muito sujos, o ar atmosférico está
muito poluído, apesar dos inúmeros e vastos espaços verdes que a cidade possui,
quer no centro, quer em seu redor. Há, no quarto fechado onde estão os filtros,
um filtro novo no chão para se poder comparar a sua cor imaculadamente branca
com o castanho acinzentado dos filtros que estão em funcionamento. O ar tem de
ser filtrado para evitar infiltrações de bactérias no circuito de ar
condicionado, obtendo-se por este processo igualmente uma melhor qualidade
sonora. Os instrumentos musicais, nomeadamente os pianos, são zelosamente
guardados num compartimento fechado onde o ar é rigorosamente medido e
regulado, e daí sobem num elevador directamente para a sala de concertos. Os
concertistas preferem os pianos de marca Steinway, e são sensíveis à perda de
qualidade sonora dos instrumentos após cinco anos de uso. Assim, os
instrumentos com mais de cinco anos são vendidos em leilão. A acústica da sala
de concertos é outra das grandes preocupações de quem projecta. Embora três
engenheiros de acústica tenham trabalhado no projecto da sala grande de
concertos do Gewandhaus, só se pode saber o resultado no final, e afirma quem
sabe: a acústica de uma sala de concertos é uma pura questão de sorte! A
propósito, para quem ainda aqui não esteve, a acústica da sala grande de
concertos do terceiro Gewandhaus de Leipzig, concluído em 1981, é perfeita.
Ana Maria Delgado
Outubro de 2009
Nota: recuperamos hoje neste blogue um texto que publiquei como colaboradora da PNET Literatura em 2009. Em baixo fica ainda a recordação do momento musical evocado em epígrafe ao texto, do filme musical The Five Pennies (1959), com Danny Kaye e Susan Gordon:
Tuesday, May 28, 2013
Poesie
Es ist ein Hell-Dunkel
und
man kann nur nach vorne gehen
nicht zurück
nicht zur Seite
die Möglichkeiten sind wie nur
auf diese eine Richtung
konzentriert
wie ein
Schicksal und ein Bestimmungsort
Mit
offenen-geschlossenen Augen
verzweifelt-hoffnungsvoll versuchen wir
uns an
das Heilig-Nüchterne zu erinnern
und einen
Ort zu finden
aus dem
heraus man wieder sehen könnte
Wir
folgen einer zutiefst verinnerlichten Musik
die jetzt im
Reich des Vergessenen liegt
auch wenn
manche glauben, uns in der
Erscheinungsform zu erkennen
Wir
schweben durch die Luft
langsam
als bewegten wir uns kaum
wir
schwimmen und gleiten
mit
fließenden Bewegungen
nach
vorne
Als wäre
es eine einzige Bestimmung
als gäbe es eine Richtung nach
Hause
die man kaum noch in Träumen finden
kann
Imagem:
Gustav Klimt, Beethovenfries: Die Poesie (Klimt dedicou esta sua obra, que se encontra na Sezession em Viena de Áustria, à 9ª Sinfonia de Ludwig van Beethoven)
Intertextualidades: Friedrich Hölderlin; Evgeny Evtuchenko, "People"
Intertextualidades: Friedrich Hölderlin; Evgeny Evtuchenko, "People"
(24 de
Maio de 2013)
Saturday, March 2, 2013
Margem
Margem
Longo tempo
caminhei por uma
muito estreita
margem
como se fosse meu
todo o horizonte
Chansonnettes (2010-2011)
Imagem e créditos: La Equilibrista, flickr.com ("una cierta mirada", autoria Luis Mariano González)
Actualizamos hoje um post de 11 de Maio de 2010 no blogue Blogando à Volta do Globo/Blogging Around the Globe
Sunday, January 27, 2013
Viagem
Uma grande onda
de solidão
trouxe-me
a esta praia
Chansonnettes (2010-2011)
Imagem: Robert Doisneau, 49. Quai du Vert Galant, Paris
(1946)
Créditos da imagem: gilbertmusings.tumblr.com
Recupero hoje uma publicação de Blogando à Volta do Globo/Blogging Around the Globe de 8 de Maio de 2010
Tuesday, October 23, 2012
A janela de canto, à maneira de prefácio de um romance por escrever, ou o outro lado da solidão
Sou curiosa como os gatos e gosto desta minha janela de canto, que lembra a janela do conto de E. T. A. Hoffmann. Mas a minha é menos citadina que essa outra, embora situada bem perto do centro da cidade. Esta não é uma janela da qual me possa debruçar desiquilibrando a relação estabelecida entre interior e exterior. É antes uma janela como a cabina do piloto num avião - o arquitecto que desenhou esta casa substituiu a parte intermédia da parede da cozinha por um vidro panorâmico, e enquanto aí trabalho vou olhando lá para fora. A comparação com a aeronave é apropriada, pois muito embora estejamos quietos e tranquilos em nossas casas, a verdade é que giramos com o nosso planeta em redor do Sol descrevendo uma elipse a uma velocidade de 30 km por segundo, velocidade essa quase cem vezes superior à do som, ao mesmo tempo que acompanhamos com velocidade semelhante a rotação da Terra em volta do seu eixo, tudo isto com a sensação de estarmos parados.
A janela dá para a entrada de um parque, por sua vez situado nas imediações de um jardim botânico, e é movimentada de dia e sossegada à noite. Na Primavera e Verão quase só vejo o verde das folhas das árvores que me fazem de cortina, e o doirado que reflectem da luz do sol, ocultando quase por inteiro a vista sobre o vaivém de quem entra e sai do parque. No Outono e Inverno os ramos vão ficando despidos e depois nus, em breve se recortam em negro no cinzento dos dias, até que acabam por ficar brancos quando a neve chega, e posso então ver com maior nitidez as pessoas que vêm aqui passear. Vejo o mudar das estações desta janela, pouco a pouco dia após dia e no momento imperceptível da mudança, decisivo e difícil de detectar, porque é constante e vai simplesmente acontecendo, se estivermos bem atentos ao respirar das folhas e à conspiração das flores, ao rumorejar das gotas de água nas nuvens e à enigmática preparação dos cristais de neve, tão diferentes todos uns dos outros - embora nós humanos pouco costumemos reparar nessas coisas que tão silenciosamente nos rodeiam. Talvez o cinema, arte do movimento, tivesse a capacidade de mostrar o invisível. Mas quando se trata do momento da transformação, creio que nem o cineasta mais atento seria capaz de o dar a ver. Provavelmente porque, mesmo no coração da mudança, o registo exacto do instante em que as coisas mudam teria de pertencer a alguma espécie de eterna suspensão do tempo, de tão lenta a transformação. Pasmo ininterruptamente perante o mistério da vida, que se desenrola diante dos nossos olhos sem que, a maior parte das vezes, sejamos capazes de a ver.
A janela dá para a entrada de um parque, por sua vez situado nas imediações de um jardim botânico, e é movimentada de dia e sossegada à noite. Na Primavera e Verão quase só vejo o verde das folhas das árvores que me fazem de cortina, e o doirado que reflectem da luz do sol, ocultando quase por inteiro a vista sobre o vaivém de quem entra e sai do parque. No Outono e Inverno os ramos vão ficando despidos e depois nus, em breve se recortam em negro no cinzento dos dias, até que acabam por ficar brancos quando a neve chega, e posso então ver com maior nitidez as pessoas que vêm aqui passear. Vejo o mudar das estações desta janela, pouco a pouco dia após dia e no momento imperceptível da mudança, decisivo e difícil de detectar, porque é constante e vai simplesmente acontecendo, se estivermos bem atentos ao respirar das folhas e à conspiração das flores, ao rumorejar das gotas de água nas nuvens e à enigmática preparação dos cristais de neve, tão diferentes todos uns dos outros - embora nós humanos pouco costumemos reparar nessas coisas que tão silenciosamente nos rodeiam. Talvez o cinema, arte do movimento, tivesse a capacidade de mostrar o invisível. Mas quando se trata do momento da transformação, creio que nem o cineasta mais atento seria capaz de o dar a ver. Provavelmente porque, mesmo no coração da mudança, o registo exacto do instante em que as coisas mudam teria de pertencer a alguma espécie de eterna suspensão do tempo, de tão lenta a transformação. Pasmo ininterruptamente perante o mistério da vida, que se desenrola diante dos nossos olhos sem que, a maior parte das vezes, sejamos capazes de a ver.
Muitas vezes tenho pensado em como seria imaginar histórias como fez E. T. A. Hoffmann nos seus contos fantásticos - mas logo a fantasmagoria do real me invade e fico momentos infindáveis a reflectir sobre o mistério das coisas, num encantamento feito de respeito e cumplicidade.
Música de Robert Schumann, compassos iniciais da Kreisleriana op. 16, "2. Sehr innig und nicht zu rasch / Con molta espressione, non troppo presto", na interpretação de Martha Argerich, sobre som-ambiente
Janela de Leipzig que imaginei poderia bem ter sido o modelo da janela do conto de E. T. A. Hoffmann ("Des Vetters Eckfenster")
Saturday, September 29, 2012
Receita para o sonho

Diz-me o que me acontece.
Sonho lucidamente
com mil realidades
com os pés na terra.
Parto para mil viagens,
universos e galáxias,
busco, procuro, exploro,
levanto voo, penso, sinto,
estou a aprender a sonhar
com os pés na terra.
Leve borboleta esvoaço
em raízes mil e elásticas.
Que maravilha!
Sistro (1979)
Foto de Luis Mariano Gonzáles, "Con los pies en el cielo"
www.flickr.com/unaciertamirada
Luis Mariano Gonzáles, "La vida después del sueño", I e II:

Nota da autora: actualizo hoje o post deste blogue do dia 3 de Novembro de 2010 com mais duas belíssimas fotos de Luis Mariano Gonzáles, "La vida después del sueño", I e II.
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