Wednesday, February 5, 2014



Caríssimas amigas e amigos, os problemas técnicos com estes quatro blogues, que desde Abril de 2010 com tanto gosto e carinho tenho vindo a escrever com textos, música e imagens, estão sanados. Tudo vai, por isso, regressar à normalidade por aqui. Os quatro blogues de continuidade que entretanto criei continuarão na blogosfera como suporte e salvaguarda do essencial destes quatro blogues, e como prova de que não passo sem estes posts! Pela primeira vez há uma mensagem comum a todos - sabe tão bem voltar a casa!
 
 
 
 

Monday, February 3, 2014

Caríssimas amigas e amigos, obrigada pela atenção dada ao Blogando ao Sabor da Brisa / Blogging Along With the Breeze ao longo destes quatro últimos anos. Por motivos vários, vou dá-lo por terminado e podem continuar a seguir os textos que me inspiram no blogue Wet Paint Pintado de fresco, que comecei a 1 de Fevereiro de 2014, assinado da mesma maneira, Ana Constança Messeder. A todos um abraço e até lá!

Wednesday, January 1, 2014






O melhor ar da cidade


 
 



“I blow through here… and the music goes round and round… and it comes down here” (Danny Kaye, The Five Pennies)

       Não é nos parques, jardins botânicos ou bosques que se respira o melhor ar de uma cidade, mas sim... numa sala de concertos.  Talvez nem pensemos nisto, quando assistimos a um concerto e nos deleitamos com o sublime dos sons, mas toda essa “fantasmagoria” sonora depende, afinal, também  de coisas bem concretas. Tal como quando conversamos com alguém, e o entendimento depende de tantas coisas complexas como falarmos o mesmo idioma, termos referências culturais comuns, estarmos num momento mais ou menos sociável... Mesmo partilhando códigos de referência a comunicação é difícil e “a linguagem é fonte de mal-entendidos”, como escreveu Saint-Exupéry. Pode então desistir-se da comunicação, mas também o silêncio pode ser eloquente, ou de oiro. Seja como for, quando comunicamos oralmente não são só factores linguísticos e culturais, afectivos ou emocionais que estão em questão na comunicação, mas antes disso todo um processo físico de transmissão do som, sem o qual nem valeria a pena falar de toda a complexidade interpessoal dos processos de comunicação. Na verdade, o som em si nem existe como tal, são antes as ondas sonoras que transportam aos nossos ouvidos vibrações do ar que são captadas e amplificadas 180 vezes pelo nosso aparelho auditivo, até a informação chegar ao cérebro.

       Podia ser aqui ou noutra cidade da Alemanha ou do mundo, mas imaginemos que estamos a fazer uma visita guiada ao Gewandhaus em Leipzig. Não é pela sala grande que começamos, uma sala monumental de 1.900 lugares, a que preside um majestoso órgão de 6.638 tubos, encimado pela máxima que guia a orquestra, uma citação de Séneca, “Res severa (est) verum gaudium”, “A alegria autêntica é uma coisa séria”. Juntamente com esta imagem emblemática, uma outra se nos grava na memória, mais minimalista e pósmoderna, e é por aí que começa uma visita guiada ao Gewandhaus: a dos filtros de ar nas caves do edifício. São compartimentos repletos de maquinaria onde o ar exterior é cuidadosamente filtrado. Os filtros estão muito sujos, o ar atmosférico está muito poluído, apesar dos inúmeros e vastos espaços verdes que a cidade possui, quer no centro, quer em seu redor. Há, no quarto fechado onde estão os filtros, um filtro novo no chão para se poder comparar a sua cor imaculadamente branca com o castanho acinzentado dos filtros que estão em funcionamento. O ar tem de ser filtrado para evitar infiltrações de bactérias no circuito de ar condicionado, obtendo-se por este processo igualmente uma melhor qualidade sonora. Os instrumentos musicais, nomeadamente os pianos, são zelosamente guardados num compartimento fechado onde o ar é rigorosamente medido e regulado, e daí sobem num elevador directamente para a sala de concertos. Os concertistas preferem os pianos de marca Steinway, e são sensíveis à perda de qualidade sonora dos instrumentos após cinco anos de uso. Assim, os instrumentos com mais de cinco anos são vendidos em leilão. A acústica da sala de concertos é outra das grandes preocupações de quem projecta. Embora três engenheiros de acústica tenham trabalhado no projecto da sala grande de concertos do Gewandhaus, só se pode saber o resultado no final, e afirma quem sabe: a acústica de uma sala de concertos é uma pura questão de sorte! A propósito, para quem ainda aqui não esteve, a acústica da sala grande de concertos do terceiro Gewandhaus de Leipzig, concluído em 1981, é perfeita.

Ana Maria Delgado
Outubro de 2009
 
Nota: recuperamos hoje neste blogue um texto que publiquei como colaboradora da PNET Literatura em 2009. Em baixo fica ainda a recordação do momento musical evocado em epígrafe ao texto, do filme musical The Five Pennies (1959), com Danny Kaye e Susan Gordon:
 
 
 

Tuesday, May 28, 2013



 
 
Poesie
  
Es ist ein Hell-Dunkel und
man kann nur nach vorne gehen
nicht zurück
nicht zur Seite
die Möglichkeiten sind wie nur
auf diese eine Richtung konzentriert
wie ein Schicksal und ein Bestimmungsort
Mit offenen-geschlossenen Augen
verzweifelt-hoffnungsvoll versuchen wir
uns an das Heilig-Nüchterne zu erinnern
und einen Ort zu finden
aus dem heraus man wieder sehen könnte
Wir folgen einer zutiefst verinnerlichten Musik
die jetzt im Reich des Vergessenen liegt
auch wenn manche glauben, uns in der
Erscheinungsform zu erkennen
Wir schweben durch die Luft
langsam als bewegten wir uns kaum
wir schwimmen und gleiten
mit fließenden Bewegungen
nach vorne
Als wäre es eine einzige Bestimmung
als gäbe es eine Richtung nach Hause
die man kaum noch in Träumen finden kann
 
Imagem: Gustav Klimt, Beethovenfries: Die Poesie (Klimt dedicou esta sua obra, que se encontra na Sezession em Viena de Áustria, à 9ª Sinfonia de Ludwig van Beethoven)

Intertextualidades: Friedrich Hölderlin; Evgeny Evtuchenko, "People"
 
(24 de Maio de 2013)

Saturday, March 2, 2013

Margem

 
 
 
Margem

 
Longo tempo

caminhei por uma

muito estreita

margem

como se fosse meu

todo o horizonte




Chansonnettes (2010-2011)


Imagem e créditos: La Equilibrista, flickr.com ("una cierta mirada", autoria Luis Mariano González)

Actualizamos hoje um post de 11 de Maio de 2010 no blogue Blogando à Volta do Globo/Blogging Around the Globe

Sunday, January 27, 2013

Viagem




Uma grande onda

de solidão

trouxe-me

a esta praia



Chansonnettes (2010-2011)


Imagem: Robert Doisneau, 49. Quai du Vert Galant, Paris (1946)

Créditos da imagem: gilbertmusings.tumblr.com
 
Recupero hoje uma publicação de Blogando à Volta do Globo/Blogging Around the Globe de 8 de Maio de 2010

Tuesday, October 23, 2012

 A janela de canto, à maneira de prefácio de um romance por escrever, ou o outro lado da solidão

 
 
 
 
 
Sou curiosa como os gatos e gosto desta minha janela de canto, que lembra a janela do conto de E. T. A. Hoffmann. Mas a minha é menos citadina que essa outra, embora situada bem perto do centro da cidade. Esta não é uma janela da qual me possa debruçar desiquilibrando a relação estabelecida entre interior e exterior. É antes uma janela como a cabina do piloto num avião - o arquitecto que desenhou esta casa substituiu a parte intermédia da parede da cozinha por um vidro panorâmico, e enquanto aí trabalho vou olhando lá para fora. A comparação com a aeronave é apropriada, pois muito embora estejamos quietos e tranquilos em nossas casas, a verdade é que giramos com o nosso planeta em redor do Sol descrevendo uma elipse a uma velocidade de 30 km por segundo, velocidade essa quase cem vezes superior à do som, ao mesmo tempo que acompanhamos com velocidade semelhante a rotação da Terra em volta do seu eixo, tudo isto com a sensação de estarmos parados.


A janela dá para a entrada de um parque, por sua vez situado nas imediações de um jardim botânico, e é movimentada de dia e sossegada à noite. Na Primavera e Verão quase só vejo o verde das folhas das árvores que me fazem de cortina, e o doirado que reflectem da luz do sol, ocultando quase por inteiro a vista sobre o vaivém de quem entra e sai do parque. No Outono e Inverno os ramos vão ficando despidos e depois nus, em breve se recortam em negro no cinzento dos dias, até que acabam por ficar brancos quando a neve chega, e posso então ver com maior nitidez as pessoas que vêm aqui passear. Vejo o mudar das estações desta janela, pouco a pouco dia após dia e no momento imperceptível da mudança, decisivo e difícil de detectar, porque é constante e vai simplesmente acontecendo, se estivermos bem atentos ao respirar das folhas e à conspiração das flores, ao rumorejar das gotas de água nas nuvens e à enigmática preparação dos cristais de neve, tão diferentes todos uns dos outros - embora nós humanos pouco costumemos reparar nessas coisas que tão silenciosamente nos rodeiam. Talvez o cinema, arte do movimento, tivesse a capacidade de mostrar o invisível. Mas quando se trata do momento da transformação, creio que nem o cineasta mais atento seria capaz de o dar a ver. Provavelmente porque, mesmo no coração da mudança, o registo exacto do instante em que as coisas mudam teria de pertencer a alguma espécie de eterna suspensão do tempo, de tão lenta a transformação. Pasmo ininterruptamente perante o mistério da vida, que se desenrola diante dos nossos olhos sem que, a maior parte das vezes, sejamos capazes de a ver.
 
 
Muitas vezes tenho pensado em como seria imaginar histórias como fez E. T. A. Hoffmann nos seus contos fantásticos - mas logo a fantasmagoria do real me invade e fico momentos infindáveis a reflectir sobre o mistério das coisas, num encantamento feito de respeito e cumplicidade.


 
(Leipzig, 2011)


Música de Robert Schumann, compassos iniciais da Kreisleriana op. 16, "2. Sehr innig und nicht zu rasch / Con molta espressione, non troppo presto", na interpretação de Martha Argerich, sobre som-ambiente
 
 
 

Janela de Leipzig que imaginei poderia bem ter sido o modelo da janela do conto de E. T. A. Hoffmann ("Des Vetters Eckfenster")