Sunday, May 30, 2010

Ouvindo o 1º Prelúdio do Cravo Bem-Temperado de Bach - à minha mãe, Maria Helena (aqui interpretado por Alexei Sultanov)







Ouvindo o 1º Prelúdio do Cravo Bem-Temperado de Bach
- à minha mãe, Maria Helena

Dos meus dedos goteja poesia
sinto-a nas veias a latejar
pinga no papel em sangue vermelho
tira sons do azul da minha dor
do branco impuro faz mil farrapos
de improviso cria um arco-íris
mistura as cores, é caleidoscópio,
rapsódia fantástica, é silêncio,
é sinfonia, é som, sem cessar.

Dos meus dedos goteja poesia.
Para ti, queria eu só que fosse
água viva, clara, cristalina,
a correr no papel como da fonte
que mata aquela sede que sentimos
do que é puro, e forte, e necessário.

Tu és aquilo sem o qual
a vida não tem sentido.
És-me necessário, imprescindível,
és a própria escrita sem a qual
a minha não faz sentido.

Sistro, 1979

Imagem: Capa do manuscrito do Cravo Bem-Temperado de J. S. Bach

Suão (e 'Danza ritual del fuego', de Falla, na interpretação da Orquestra Sinfónica de Chicago, dirigida por Daniel Barenboim)




Suão


O Suão é quente e seco no Verão, de Inverno é quente e frio.


O Suão vem dos desertos do Norte de África ao encontro de núcleos de menores pressões criadas por situações de aquecimento continental.


Na Beira Alta existem corredores de vento que, juntamente com o efeito exercido por obstáculos, as serras, criam acelerações muito grandes de correntes de ar.


No lado poente do Buçaco o Suão sente-se de modo particularmente agudo porque o obstáculo encontrado - a própria serra - faz com que o vento se movimente com muito mais força.


O Suão começa pela meia-noite e sopra com mais força até ao meio-dia.


O Suão afecta as pessoas física e psiquicamente. Actua como um excitante nervoso, mas ao mesmo tempo deixa-as num estado de lassidão.


Nas noites de Suão a atmosfera é tão seca que proporciona uma visibilidade excepcional que faz com que as coisas mais longínquas pareçam muito próximas, como se fossem vistas por um óculo mágico.


O Suão espalha no ar um ambiente dramático, de iminência de qualquer coisa de excepcional que está para acontecer.



Modo Vocativo (1979)


Saturday, May 22, 2010




Escrita Secreta







Se eu pudesse - conservando todo o meu sangue-frio e mantendo todo o calor do meu sangue - escrever de modo branco na página por escrever, branco sobre branco, de modo invisível, para que todas as cores unidas me ocultassem dos meus perseguidores e me revelassem na transparência que tenho apenas para quem, sabendo-me ler, merecesse conhecer-me de cor...
(2003)

Assim regressaria a página à sua brancura inicial, pura ou impura conforme a perspectiva do criador, e àquela categoria infinita e infinitamente misericordiosa, segundo criatura ou criador ainda, a da possibilidade.


Chansonettes (2010)

Imagem: Paul Klee, Geheimschrift, Escrita Secreta

Créditos da imagem: allposters.de

Saturday, May 8, 2010


Breathless Blues

Never Will I Forget the Blues


I missed you
I had been missing you

I've missed you

I have been missing you

I miss you

I'm missing you


Should I miss you?

Should I be missing you?

Shall I miss you?

Shall I be missing you?


Have I forgotten any tense?

I'll remember that missing one

If you don't give me the chance


To miss you more


Images in Blues (1979)


Imagens: Sidney Bechet e Mezz Mezzrow


Créditos das imagens: jazzlives.wordpress.com



 

Tuesday, May 4, 2010



Riding My Bicycle


Somewhere from where you are
Over all possible rainbows
You'll see me riding my bicycle


Over all possible colours
Skies, absences or silences
You'll see me riding my bicycle


As invisible as
and frail
and weightless as
a mosquito


in circles and evasions
envelopping you
or no


You'll see me riding my bicycle
No tricks, no filthy magic
just a girl riding her bicycle


As quiet as
and grave
and definite as
a Bergman silhouette


You'll see me riding my bicycle
No Dance of Death
Just a girl riding her bicycle


In a rainbow of joy
and life
and colour
over all possible rainbows

just a girl riding a bicycle



Images in Blues (1979)


Imagem: Norman Rockwell, Wet Paint (Pintado de fresco)


Créditos da imagem: allposters.de


Sunday, May 2, 2010




Prince et Princesse de Bohème au XXème siècle


Le soleil un jour va
te chercher et te dire
Moi je t'aime bien, viens
te coucher avec moi
de l'autre côté de la Terre.
Toi tu ne sais plus trop
quoi dire, tu es fasciné,
la lumière te brûle un peu
les yeux, tu lui dis
Oui, je veux bien, allons-y.
Alors on y va et tu
te sens chez toi! Tu lui dis ici
je suis bien mieux, tu
sais, que chez moi! C' est
peut-être, te répond-il,
à cause du coucher du soleil?
On ne sait plus toi et moi
distinguer Petit Prince et renard,
fleur et serpent! Toi...
mais toi, c' est aussi moi!
On se reconnaît à cause
de la lumière, de l' éclat
des yeux - le soleil de
tes yeux soudain reposant
sur mes cheveux, mes doigts
caressant le soleil dans les tiens.

Toi et moi, c' est toujours ça -
notre enfance à jamais retrouvée,
nos éclats de rire occupant
la nuit merveilleuse en rêvant
le plus joli rêve du monde entier:

au XXème siècle en Bohème à Liblice
Prince et Princesse en réalité.


Sistro (1979)

Foto: Liblice, República Checa


O que os livros dizem à Annie

Sometimes I feel like a motherless child -

Também nós sentimos a tua falta, Annie - quando corres a tua vista pelas
nossas páginas - como quando afagas o teu cavalo depois de correrem campo fora - sabemos que viajamos pela tua cabeça e depois percorremos
o teu sistema sanguíneo e nos entranhamos em ti até realmente fazermos
parte do teu corpo, espírito, coração e alma - e - alguns milhares de anos depois - mas quanto ansiámos e nos impacientámos! - reaparecemos subitamente transformados, metamorfoseados numa outra vida no entretecer e pulsar da tua escrita.

(2010)

O que acontece dentro de uma pessoa que está a ler - penso que este tem sido o meu verdadeiro mundo real até agora.

What happens inside a person reading - I think this has been my real real world until now.

(2006)

Chansonettes (2010)

Imagem: Franz Eybl, Lesendes Mädchen, Menina a Ler (1850)




Earl Grey, quase uma autobiografia de adolescência





"Tout bonheur est une innocence"
Marguerite Yourcenar



Earl Grey, Earl Grey é o meu chá da manhã (agora que começo a ter hábitos de gente crescida e já me autorizam a beber chá ao pequeno-almoço), esse nobre inglês cativou todo o meu ser matutino - mas não, mas não, foi Catarina de Bragança quem trouxe o chá para a corte inglesa -


Earl Grey é a minha festa matinal, o sabor amargo da bergamota ajuda-me a entrar no dia, estas transições são-me sempre difíceis - sei que a colega do quarto ao lado no lar de estudantes não mo surripia porque não gosta do aroma do Earl Grey - o nome em inglês é-me familiar, talvez por causa dos antepassados escoceses do meu avô materno, que vieram da Escócia para o Porto e se chamavam Messeder - mas não, Annie, esses provavelmente falavam gaélico - mas não, mas não, 2% da população da Escócia, ca. de 5 milhões de habitantes é que falam gaélico escocês hoje em dia - mas a história do antepassado escocês já foi no séc. XIX -

Earl Grey, eu gostava tanto de cantar, hoje é um novo dia e está um magnífico dia de sol, tal como ele levanta-te e brilha, rise and shine - mas cantar para quê, Annie, os tempos não estão para lirismos - mas Earl Grey, Earl Grey, hei-de hoje cantar o teu nome que já esqueci, e seja ele qual for, pois até já isso deixou de interessar, pelas ruas da cidade, e sem corar!
 
 

Chansonettes (2010)
Créditos da imagem: adiaspora.com